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Esse texto está parado há mais tempo que qualquer outro. Talvez por ser sensível demais ou por eu não saber como expressar sentimentos confusos. O que era pra ser amor, amizade e qualquer outra coisa boa, na verdade, é uma mistura de tudo. Isso inclui ingratidão da minha parte também.

Porque é difícil falar sobre alguém que, ao mesmo tempo em que te fez feliz, também te fez sentir coisas que você não sabe explicar. É difícil separar as lembranças boas das ruins quando elas parecem morar no mesmo lugar, e talvez seja justamente isso que me fez demorar tanto para escrever.

Eu sei que existem coisas pelas quais sou grata. Sei das vezes em que fui cuidada, das coisas que recebi, dos momentos bons e de tudo aquilo que, olhando de fora, deveria ser suficiente para dizer “eu tive uma boa infância”. E talvez eu tenha tido. Mas isso não apaga o que doeu. E é aí que começa a parte complicada, porque admitir que algo me machucou parece, na minha cabeça, uma espécie de acusação. Como se reconhecer a minha própria dor significasse dizer que tudo de bom não valeu de nada. Como se eu estivesse sendo injusta, ingrata ou não tivesse o direito de me sentir assim. Só que sentimentos não funcionam desse jeito, né?

Eu posso ser grata e ainda assim ter ficado triste. Posso amar e ainda sentir medo. Posso guardar lembranças boas e, ao mesmo tempo, não querer reviver algumas delas. Talvez o mais difícil seja aceitar que essas coisas podem existir juntas, sem que uma torne a outra uma mentira. Talvez seja por isso que algumas lembranças sejam tão difíceis de colocar em palavras, porque nem sempre foram grandes acontecimentos isolados. Às vezes eram coisas pequenas, mas que, quando você é criança, parecem enormes. Um tratamento de silêncio que fazia a casa parecer muito maior e mais vazia do que realmente era. Um olhar que fazia você pensar duas vezes antes de abrir a boca. A sensação de não saber exatamente o que tinha feito, mas saber que tinha feito alguma coisa.

Não quero transformar todas as lembranças boas em algo ruim só porque algumas delas doeram. Também não quero fingir que nada aconteceu só porque hoje consigo olhar para algumas coisas de outra maneira. Acho que, por muito tempo, tentei escolher entre uma e outra, como se precisasse decidir se fui feliz ou se fui machucada. E hoje começo a entender que posso ter sido as duas coisas.

Bom, ainda tenho medo e ainda penso demais antes de tomar algumas decisões. Ainda procuro aprovação e, às vezes, me pego querendo ter certeza de que estou fazendo tudo certo. Uma parte de mim ainda é aquela criança tentando descobrir o que precisa fazer para não decepcionar. E acho que é justamente isso que estou tentando mudar. Não apagar o que aconteceu, não fingir que não doeu e muito menos transformar tudo em algo ruim. Só aprender que algumas escolhas podem ser minhas, mesmo quando ninguém diz que estão certas.

Ainda não sei fazer isso muito bem. Na verdade, provavelmente vou continuar pensando demais, procurando aprovação e me perguntando se estou fazendo a coisa certa. Mas agora consigo perceber que esse medo existe e que ele não precisa decidir tudo por mim. Eu não preciso escolher entre amar e reconhecer o que me machucou. Não preciso transformar as lembranças boas em mentira para validar as ruins. Posso guardar as duas coisas e seguir em frente com elas. E acho que, depois de tanto tempo, era isso que eu precisava dizer.


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postado por Nat às 23:54 • 07 agosto 2026 • 0 Comentário/s